Novo titular do MEC, Carlos Alberto Decotelli é visto como uma alternativa pacificadora e técnica para o setor. Ele terá a missão de recuperar a desgastada imagem da pasta, definir políticas efetivas voltadas à área e retomar a interlocução com Congresso, estados e municípios

A nomeação do professor Carlos Alberto Decotelli, 67 anos, como ministro da Educação, é uma vitória da ala militar do governo em relação ao grupo ideológico. O anúncio do novo titular da pasta foi feito pelo presidente Jair Bolsonaro em suas redes sociais, e a decisão saiu em edição extra do Diário Oficial da União. A escolha causou surpresa, porque o nome dele não estava na lista dos cotados, sabatinados pelo chefe do Executivo. A leitura é de que, com a nomeação de Decotelli, o comandante do Planalto tenta pacificar a pasta, envolta em uma série de controvérsias desde o início do governo.
Em live, Bolsonaro comentou sobre a dificuldade de definir o titular para o cargo. “Obviamente, foi uma escolha muito difícil. Quatro pessoas excepcionais que se apresentaram, entre elas um jovem, que é o Renato Feder, secretário estadual de Educação do Paraná, que faz um brilhante trabalho lá. Parabéns ao governador Ratinho Júnior por ter um secretário realmente qualificado como ele”, elogiou. De acordo com Bolsonaro, Decotelli foi o escolhido pela experiência.
Economista de formação, Decotelli foi presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Oficial reformado da Marinha, já era aposta da ala militar do governo para substituir Ricardo Vélez Rodríguez, que foi o primeiro ministro da Educação da gestão Bolsonaro.
O próprio Decotelli disse ter sido surpreendido com o convite de Bolsonaro, mas, de pronto, atendeu ao chamado. “Eu estava dando aula ontem (quarta), e fiz hoje (ontem) a reunião. Fui pego de surpresa”, afirmou. Segundo ele, o presidente pediu que continuasse a gestão realizada no FNDE. O novo ministro destacou que, diferentemente do que vinha sendo feito no MEC, “não possui competência para fazer adequação ideológica” e que investirá no diálogo.
“O que ele (Bolsonaro) pontuou foi, primeiro, fazer uma gestão voltada para a educação da sociedade brasileira, conforme o marco regulatório da educação. Em segundo lugar, fazer o melhor diálogo com as entidades representativas da educação — as universidades federais, os centros técnicos. Melhor diálogo também com entidades de classe”, afirmou. “Todos aqueles que querem fazer o melhor pela educação brasileira. Então, diálogo, gestão e integração operacional.”
Decotelli completou: “Fui presidente do FNDE no ano passado, do início do governo até agosto, e lá apliquei gestão integrada e bom relacionamento com as entidades da Educação brasileira. É isso que foi pedido: o que foi feito no FNDE no ano passado que se estenda à gestão do MEC”.
Quando ele esteve à frente do FNDE, porém, a Controladoria-Geral da União (CGU) encontrou irregularidades numa licitação de R$ 3 bilhões para a compra de computadores, laptops e tablets destinado a alunos da rede pública. A licitação foi suspensa dias após a saída dele do cargo.
Primeiro ministro negro de Bolsonaro, Decotelli é o terceiro a comandar a pasta da Educação na gestão Bolsonaro. O antecessor, Abraham Weintraub, foi demitido no último dia 18. Ele deixou o governo após criar atrito do Executivo com o Judiciário, que se intensificou pelos insultos que fez contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele havia assumido no lugar de  Vélez Rodrígues, que deixou o cargo em abril, após protagonizar batalha entre grupos ligados a militares, técnicos do órgão e olavistas.
Passado condena

Renato Feder era um dos mais fortes candidatos ao cargo. Ele reuniu-se com Bolsonaro nesta semana e saiu do encontro chamando o presidente de “estadista”. Pesou contra ele, no entanto, o fato de, como empresário do setor de tecnologia, ter sido um dos principais doadores para a campanha de João Doria (PSDB) à prefeitura de São Paulo, em 2016. O tucano, hoje governador do estado, tornou-se desafeto do chefe do Executivo federal. O filho 02 do presidente, Carlos Bolsonaro, era contra a escolha de Feder. Na avaliação dele, “não é hora de nomear aliados de inimigos do governo”.
Saiba mais
 
Extenso currículo
 
Carlos Alberto Decotelli tem extenso currículo em finanças. Fez pós-doutorado na Bergische Universitat Wuppertal, na Alemanha; é doutor em administração financeira pela Universidade Nacional de Rosário, na Argentina; é mestre em administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV/Ebape). Tem MBA em administração pela FGV/EBAPE/EPGE e é bacharel em ciências econômicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ele criou o curso gestão financeira corporativa no New York Institute of Finance e coordenou o de finanças corporativas internacionais na FGV. Na educação, foi professor de pós-Graduação em finanças na Fundação Dom Cabral e na FGV; e professor e membro da equipe de criação do curso de pós-graduação em finanças na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com o ex-juiz Sergio Moro e o professor Edgar Abreu. Na Marinha, também atuou como professor e coordenador do Jogo de OMPS na EGN — Escola de Guerra Naval, no Centro de Jogos de Guerra.
Opiniões
“Decotelli é reconhecido por seu perfil acadêmico sólido, competência, fácil diálogo, e tem ampla experiência”, Trecho da nota da ABMES.
 
“Enquanto presidente do FNDE, Carlos Alberto Decotelli manteve um bom canal de diálogo com os secretários”, Trecho da nota do Consed.
 
“Nós questionamos quais são as prioridades do governo Bolsonaro para a educação, visto que, mais uma vez, o ministro é alguém ligado à economia”, Rozana Barrozo, presidente da Ubes.
 
“O novo ministro da Educação não tem praticamente nenhuma experiência ou proximidade com a educação, a não ser ter sido presidente do FNDE, há alguns meses. Bolsonaro entrega o MEC ao mercado financeiro”,Iago Montalvão, presidente da UNE.
 
“É sintomático que a comemoração seja: ‘Finalmente temos um negro no Ministério da Educação!’, e não: ‘Finalmente temos um técnico no Ministério da Educação!’. Isso demonstra como a manipulação da identidade racial é feita. (…) Paremos, portanto, de olhar para o indivíduo. Olhemos para como o governo trata a educação em um país de profunda desigualdade”, Silvio Almeida, jurista e professor, autor do livro Racismo Estrutural.

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