Cada vez mais empenhado com o projeto da reeleição, o presidente se mostra disposto a abandonar a agenda liberal que o elegeu em 2018, acumula desgastes com a equipe econômica e transfere para o Congresso o ônus de definir prioridades no Orçamento

O presidente Jair Bolsonaro tem visto a sua popularidade crescer nos últimos meses e quer garantir que esse bom momento não seja algo passageiro. Para isso, o chefe do Executivo tem tomado o cuidado de tentar desvincular o nome dele de propostas que possam significar uma afronta para a população ou repercutir de forma negativa entre os seus eleitores. Os movimentos de Bolsonaro são minimamente calculados, especialmente por causa da sua pretensão de se reeleger em 2022. Com sede de poder, o presidente fará de tudo para manter a boa imagem até o próximo pleito presidencial, mesmo que para isso ele tenha de desagradar aos seus próprios comandados

Os sinais mais claros disso aconteceram na última semana. Para seguir em alta com os brasileiros mais pobres, que passaram a apoiá-lo por conta do sucesso do auxílio emergencial, Bolsonaro criticou o Ministério da Economia por sugerir cortar benefícios da população menos abastada como forma de viabilizar a criação do Renda Brasil, programa social que deve substituir o Bolsa Família. Além disso, para manter mobilizada a sua base de apoio mais fiel, disse ser a favor do afrouxamento das regras tributárias para igrejas e templos, o que também não encontra respaldo na equipe econômica.

Contudo, como os temas causaram ruído dentro do Executivo, o presidente decidiu transferir a responsabilidade para o Congresso Nacional. Deu aval para que o senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator do Orçamento para 2021, construa um novo programa de transferência de renda e incitou os parlamentares a darem a palavra final sobre o projeto de lei que permite o perdão de dívidas tributárias a instituições religiosas — Bolsonaro até orientou a derrubada do seu veto à proposta, que só foi estabelecido para que ele não respondesse a um processo de impeachment por crime de responsabilidade fiscal.

Para evitar um desgaste desnecessário à sua gestão, o presidente espera que deputados e senadores levem o tempo que for necessário para concluir as propostas e tomem “a decisão correta” por ele. A ideia do chefe do Executivo é poupar-se de episódios como o da última terça-feira, quando fez um desabafo público sobre o Ministério da Economia pela proposta de congelar aposentadorias e pensões como alternativa para abrir espaço no Orçamento ao Renda Brasil. “Quem porventura vier a propor para mim uma medida como essa, eu só posso dar um cartão vermelho para essa pessoa”, advertiu o chefe do Planalto.

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