Na ONU, presidente volta a insinuar que, por trás das críticas, existe uma campanha pela internacionalização da região. E cobra de outros países que cumpram os compromissos assumidos na ecologia

Em discurso no primeiro Encontro de Cúpula das Organização das Nações Unidas (ONU) sobre biodiversidade, nesta quarta-feira (30), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que há “cobiça internacional” na Amazônia. Ele ainda disse que a região será defendida “de ações e narrativas que agridam os interesses nacionais”, referindo-se ao fato de que o Brasil vem sendo criticado pela comunidade internacional por não conter a devastação da região e de outros biomas, como o Pantanal, por adotar um discurso que estimula as queimadas e a derrubada das matas nativas.

“Não podemos aceitar que informações falsas e irresponsáveis sirvam de pretexto para a imposição de regras internacionais injustas, que desconsiderem as importantes conquistas ambientais que alcançamos em benefício do Brasil e do mundo”, reagiu.

O presidente ainda cobrou de outros países que cumpram os compromissos que assumiram na área ambiental. “É preciso que todos os países cumpram com suas responsabilidades, arquem com a parte que lhes cabe e se unam contra males como a biopirataria, a sabotagem ambiental e o bioterrorismo”, observou.

Bolsonaro ressaltou que o governo brasileiro “mantém firme o compromisso com o desenvolvimento sustentável e com a gestão soberana dos recursos brasileiros”.

“Estaremos sempre abertos a contribuir para um debate fundamentado no respeito aos três pilares da Convenção de Diversidade Biológica: a conservação, o uso sustentável e a repartição de benefícios. Espero o mesmo compromisso por parte dos senhores”, reiterou.

O encontro, que reuniu mais de 100 chefes de Estado e de governo, teve por objetivo discutir formas de combate ao declínio do número de espécies do planeta e preparar para a Conferência das Partes da Convenção sobre Biodiversidade (COP15), que acontecerá em Kunming, na China, em 2021.

Protestos com esculturas de gelo

Ativistas do Greenpeace nos Estados Unidos posicionaram esculturas de gelo, em tamanho real, na frente do prédio da Organização dos Nações Unidas (ONU), onde a reunião foi realizada, com cartazes com os dizeres “Líderes da extinção: destruindo um planeta em crise”.

“Um milhão de espécies estão em processo de extinção e o derretimento das esculturas simboliza, sobretudo, os efeitos das omissões e ações contraditórias adotadas por esses governos no planeta, verdadeiros vilões do clima e da biodiversidade”, afirmou Cristiane Mazzetti, da campanha de florestas e gestora ambiental do Greenpeace Brasil.

O Brasil, além de abrigar a maior floresta tropical do mundo, está entre os países com maior biodiversidade do planeta. “No entanto, o governo federal está promovendo ativamente uma agenda anti-ambiental, alimentando a crise da biodiversidade e ameaçando os direitos dos povos indígenas, que são verdadeiros guardiões de áreas naturais”, completou Mazzetti.

Bolsonaro x Biden

Em debate na noite de ontem, o candidato à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, prometeu US$ 20 bilhões para combater a devastação da Amazônia, mas disse que haveria retaliações se o governo brasileiro não tomasse medidas eficazes contra o desmatamento.

Em uma publicação nas redes sociais nesta quarta-feira (30/9), Bolsonaro rebateu a fala do democrata afirmando que a soberania do país é inegociável. Ele disse ainda que o governo tem tomado “ações sem precedentes” para proteção da Amazônia.

“Meu governo está realizando ações sem precedentes para proteger a Amazônia. Cooperação dos EUA é bem-vinda, inclusive para projetos de investimento sustentável que criem emprego digno para a população amazônica, tal como tenho conversado com o Presidente Trump”.

Bolsonaro apontou que a região amazônica é cobiçada por outros países e que a declaração de Biden sinaliza “abrir mão de uma convivência cordial e profícua”.

“A cobiça de alguns países sobre a Amazônia é uma realidade. Contudo, a externação por alguém que disputa o comando de seu país sinaliza claramente abrir mão de uma convivência cordial e profícua”.

Bolsonaro classificou como “lamentável e desastrosa” a fala do candidato americano. “Custo entender, como chefe de Estado que reabriu plenamente a sua diplomacia aos Estados Unidos, depois de décadas de governos hostis, tão desastrosa e gratuita declaração. Lamentável, sr. Joe Biden, sob todos os aspectos, lamentável”, escreveu o presidente. O recado também ganhou uma versão em inglês para que possa chegar ao conhecimento de Biden.

Já o vice-presidente Hamilton Mourão, coordenador do Conselho da Amazônia, não achou que a fala de Biden tenha sinalizado uma ameaça. “Eu não vi questão de ameça, não. Só vi que Biden disse que colocaria US$ 20 bilhões de dólares para ajudar na questão de impedir o desmatamento ilegal. Vamos aguardar. Achei que o debate (presidencial americano) foi de baixo nível”, completou.

Mais cedo, o general também comentou o discurso de Bolsonaro na reunião da ONU. “O que ele vai abordar é aquilo que é a nossa visão, que nós sabemos que a proteção da biodiversidade da Amazônia é fundamental e transformar essa riqueza, por meio da bioeconomia, em emprego e renda para todo mundo que vive lá”.

Segundo discurso

Esse foi o segundo discurso de Bolsonaro na ONU. Na abertura da Assembleia-Geral, no último dia 22, o presidente afirmou que o Brasil é vítima de uma brutal campanha de desinformação sobre as queimadas ocorridas na Amazônia e no Pantanal. Bolsonaro ainda atacou as organizações não governamentais, classificando-as como “aproveitadoras e impatrióticas”.

“Somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal. A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos, que se unem a associações brasileiras aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil”.

Naquele discurso, Bolsonaro argumentou que há interesses comerciais por trás dos ataques em razão das queimadas.

“Somos líderes em conservação de florestas tropicais. Temos a matriz energética mais limpa e diversificada do mundo. Mesmo sendo umas das dez maiores economias do mundo, somos responsáveis apenas por 2% da emissão de carbono. Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial, mesmo preservando 66% da nossa vegetação nativa, e usando apenas 27% do nosso território para pecuária e agricultura, números que nenhum outros país possui. O país desponta como o maior produtor mundial de alimentos e, por isso, há tanto interesse em propagar tanta desinformação sobre o nosso meio ambiente”, atacou.

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