Números da Organização Mundial da Saúde colocam o Brasil como o terceiro país da América Latina com o maior consumo de álcool per capita.

 “Evite o primeiro gole” é a frase em uma placa na sala de reuniões do AA em Cuiabá

Há, em uma das avenidas mais movimentadas da capital mato-grossense, um pequeno portão de ferro azul, um tanto quanto escondido. Os transeuntes que por ali passam, apressados, não necessariamente observam os ladrilhos também azuis e nem a estreita escadaria alaranjada, logo atrás do portão. A fachada é simples, despretensiosa. É possível ver, no alto, um letreiro com as seguintes palavras: alcoólicos anônimos, grupo central, reunião todos os dias. Entre duas lojas se encontra, assim, a instituição sem fins lucrativos que há mais de 80 anos atua para salvar pessoas do vício.

Criado em 1935 nos Estados Unidos, o Alcoólicos Anônimos é uma comunidade mundial autossuficiente que oferece apoio a homens e mulheres com problemas com bebidas alcóolicas. Eles se reúnem todos os dias do ano, inclusive nos fins de semana e feriados, para trocarem experiências e relatos que o ajudem a manter a sobriedade. Até hoje, aproximadamente 2 milhões de pessoas conseguiram se recuperar do alcoolismo com o suporte do programa de A.A. No Brasil, a irmandade existe há mais de 40 anos.

Na sala de reunião localizada na Avenida da Prainha, uma placa vermelha colocada no canto esquerdo ao lado da cadeira de quem dá o depoimento lembra aos que estão presente a filosofia da instituição. “Evite o primeiro gole” está escrito em letras maiúsculas, bem acima de outra placa com os dizeres de uma oração. Sentados em silêncio, os membros escutam, com atenção, o que cada um deles tem a dizer. A identificação com a história do outro funciona para lembrar a si mesmo de que é possível superar o vício.

As sessões do A.A. são divididas em duas partes. Na primeira, cada indivíduo sobe em um pequeno palco, se ajeita em uma cadeira e ali possui seis minutos de fala cronometrados pelo coordenador – que, como em toda estrutura, é um alcoólatra em recuperação. Isso acontece porque, para manter a sobriedade, cada participante desempenha uma função dentro do A.A. de acordo com o conhecimento que possui. São eles, por exemplo, que fazem a limpeza do local, que administram o grupo e que, por meio das próprias contribuições, mantêm financeiramente a irmandade. “Aqui cada um contribui com o que pode”, afirmam.

O segundo momento é marcado pela fala de um membro selecionado para abordar a sua visão sobre um dos 12 passos que regem o Alcoólicos Anônimos. Quando o coordenador toca o sino da campainha, sinalizando o fim de mais uma sessão, eles, em conjunto, agradecem. “Estou sóbrio e estou grato”. Assim, se preparam para mais 24 horas por dia sem álcool.

MULHERES NO A.A.

Rosana* era uma mulher independente, rebelde e orgulhosa, alguém que, segundo ela, “não precisava da ajuda de ninguém”. Sua família possuía uma condição financeira estável e por isso ela teve acesso a uma educação de qualidade. Era, conforme sua descrição, “estudada”. Aos 13 anos de idade, no entanto, começou a abusar do uso de drogas e álcool, e só foi conhecer o A.A. aos 33. Hoje, aos 44, relata aos companheiros o sofrimento de ter sido uma pessoa doente alcoólica e espera, através da sua narrativa, divulgar sua mensagem de esperança.

“Achei que só fosse encontrar pessoas fracassadas aqui dentro, só que a fracassada era eu”

Durante 20 anos de alcoolismo, Rosana teve o que ela chama de “comportamentos suicidas”. Dirigia embriagada em alta velocidade, se envolvia em brigas, apanhava de desconhecidos na rua, traía o marido e se colocava em situações de risco. Era, para ela, um estado de confusão mental. “Eu tinha muita controvérsia dentro de mim. A bebida me dava a sensação de ser alguém importante. Quando eu bebia eu ficava muito agressiva”, diz.

 

Na primeira vez em que ela participou de uma das reuniões da irmandade, não entendeu o que acontecia, mas resolveu voltar. “Achei que só fosse encontrar pessoas fracassadas aqui dentro, só que a fracassada era eu”. O que chamou sua atenção foi carinho com o qual foi recebida. “O visitante é a pessoa mais importante desta reunião”, é o lema do A.A. Para chegar aos encontros, ia à pé, pois não tinha dinheiro suficiente para o transporte.

 

No ponto de vista de Rosana, o que impede muitas vezes a busca por ajuda é o estigma de gênero. “A sociedade acha que homem que bebe é ‘macho’ e mulher que bebe é ‘vagabunda'”, alega. “A mulher bebe sozinha, escondida em casa. Ela é criada para ser santa. Eu fui criada para ser perfeita e não fiz nada disso”. De acordo com dados levantados em 2019 pela Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil (JUNAAB), a média de mulheres participantes é de 1 para cada 9 homens. Ou seja, apenas 13% do grupo são mulheres.

Rosana, que tinha perdido valores de honestidade e de amor, decidiu dar uma chance à instituição. “Eu joguei as palavras ‘nunca’ e ‘jamais’ no lixo e disse: ‘eu vou tentar’. Não foi fácil”. Seu filho também teve um papel crucial na tomada dessa decisão. “Eu não queria de herança para meu filho uma mãe suicida. Que digam para ele ‘tão jovem de espírito, mas se matou, que pena'”.

A mente aberta para receber o tratamento é o que faz ele funcionar. “É preciso estar disposto a deixar algo maior do que eu fazer a diferença na minha vida. Eu vi uma pequena luz no fim do túnel, uma ‘fézinha’ que me fez ficar sóbria”. A ideia de poder superior trabalhada no Alcóolicos Anônimos tem um significado diferente para cada membro. Pode ser Deus, pode ser a comunidade, o essencial é depositar a fé em algo que possa os ajudar neste processo longo e doloroso.

ABUSO SEXUAL

Rosana, em seu depoimento, conta que somente após três anos participando das reuniões conseguiu falar sobre o abuso sexual que sofreu na infância, a primeira vez aos 4 anos de idade e a segunda aos 11. “Eu tinha guardado tudo na caixinha do inconsciente”. Foi com o grupo de apoio que ela pôde identificar a violência sofrida e detectar quais fragilidades a levavam a abusar de álcool e outras substâncias. “Eu aprendi a discernir o que me faz bem e o que me faz mal. Eu preciso aprender o que me faz mal porque o que me faz mal me leva a beber”, expressa.

“Como alguém pode abusar de uma criança que usava uma blusinha de renda amarela com florzinhas enquanto assistia a um desenho dentro de casa? Eu achava que era minha culpa, por isso o silêncio. Enquanto não voltarmos ao passado para resolvê-lo, a gente não avança. ‘Encerrou, eu não tive culpa, eu fui vítima'”, finaliza.

A IRMANDADE

O estado de Mato Grosso tem no momento 50 unidades de A.A. divididas entre as cidades. Em Cuiabá existem 20 grupos, que agora começam a retomar as atividades presenciais após meses de reuniões on-line parcialmente bem-sucedidas. Os encontros físicos precisaram ser adiados em março por conta da pandemia de covid-19. Informações sobre números e endereços podem ser encontradas no site https://www.aamt.org.br/.

*Nome fictício

Fonte: PNB online

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui